A história dos balés – Parte 3

por Caio Jobim

O nosso foco enquanto realizadores nunca foi fazer um registro do resultado que agora se pode ouvir em disco, e sim o caminho que Siba e seus colaboradores trilharam para chegar até ele. As imperfeições de toda obra em construção se fazem presentes aqui e ali. O tempo todo nosso olhar esteve voltado para as pequenas descobertas dos músicos, do produtor e do engenheiro de som, suas sugestões nem sempre certeiras; para os desacertos que conduzem a um resultado inicialmente inesperado, e por isso mesmo surpreendente; para os alicerces que serviram de base para a criação, mas que acabam obliterados diante da arte final.

Chegamos em Recife em fins de outubro de 2010 para registrar um ensaio informal de guitarra e tuba em um dos cômodos da sede da Fina Produção – Melina Hickson era ainda uma desconhecida para nós, mas logo de cara, sem estar ali de corpo presente, já demonstrava toda a generosidade que descobriríamos depois, com um convívio mais próximo. Em um ambiente não exatamente próprio para se fazer música, pois acusticamente inadequado, Siba e Leo Gervázio estavam há alguns dias construindo o esqueleto das canções, pré-definindo os arranjos de tuba, buscando o desenho rítmico das canções a partir do estilo que Siba vinha desenvolvendo para tocar guitarra em sua reaproximação com o instrumento – uma combinação da técnica rudimentar dos cantadores de viola com a espontaneidade dos músicos africanos e todo um passado roqueiro adormecido desde a adolescência.

Ao primeiro dedilhar das cordas elétricas notava-se que esse jeito de tocar era totalmente novo, em nada lembrava o Siba do Mestre Ambrósio. Não foi algo que realizamos na hora, sob o impacto do então desconhecido, mas que hoje, ao cabo do processo, é bastante óbvio: para ele a reinvenção da identidade artística passava fundamentalmente por todos os aspectos da criação.

A ideia até então era retomar o clássico formato roqueiro do power trio. Porém, com uma diferença fundamental. Um dos pilares da futura banda seria a tuba, destacando-se pelo vigor rítmico e pelas soluções melódicas que Leo trouxe de casa para complementar as primeiras ideias de Siba. Era o primeiro estágio em que Siba deixava a criação solitária para dividi-la com outro músico, mas já soava bonito e bem resolvido – a música falava por si. Palavras eram esparsas, quase desnecessárias, mais teciam comentários do que indicavam soluções.

Depois do ensaio, aconteceu a nossa primeira conversa, a única que acabou sendo estritamente objetiva, por razões óbvias. Era a retomada de um diálogo interrompido ainda no Pelas Tabelas. Então, embora houvesse confiança mútua, a intimidade ainda era pouca. Ainda assim, há momentos interessantes, quando como Siba define alguns conceitos sobre a sua relação com a guitarra e faz uma reflexão sobre sua relação descompromissada com as possíveis expectativas que o seu público possa ter a respeito de sua trajetória.

Ainda que sugerido pelas levadas, havia um vácuo à espera do ritmo. Era hora de partir pra São Paulo onde o baterista Samuca Fraga juntaria-se à dupla para os ensaios definitivos, com a presença do produtor Fernando Catatau. No final da segunda semana de ensaios, de um total programado de três, pegamos a Dutra e chegamos a São Paulo, direto no estúdio Lamparina. A musicalidade havia se expandido bastante em poucos dias, no entanto, à entrada da bateria Siba sentira a necessidade de integrar um quarto elemento à banda. Alguem com quem pudesse dividir as linhas melódicas das canções, compartilhando um mesmo espaço sonoro. Inspirado nas referências africanas, mais especificamente na música urbana do Congo, pensou no vibrafone e lembrou de Antonio Loureiro, um músico mineiro com quem dividira o palco anteriormente e de quem guardara as melhores impressões.

Nossas câmeras aguardavam a chegada de Antônio quando ele apareceu pela primeira vez na Capital Federal, numa tarde quente e nublada de novembro. A primeira música em que trabalharam foi “Preparando o Salto” – Siba na guitarra, indicando as nuances de ritmo e melodia, Antonio seguindo atrás, experimentando em cima das possibilidades sugeridas. A sintonia foi imediata, de cara ele captou a atmosfera do som e pouco depois, já com a banda toda tocando, sem muitas repetições, se pôde ouvir ecos do arranjo que acabou registrado no disco. Parte desta cena está na versão curta do filme.

Em São Paulo aconteceu a nossa segunda conversa e foi ali que Siba começou a revelar os enigmas com os quais vinha lutando para dar forma ao novo projeto. Os dilemas enquanto artista concentravam-se principalmente no embate entre o músico e o poeta, a retomada de um ofício abandonado lá atrás, ocupando um espaço até pouco tempo dedicado quase que exclusivamente ao trabalho com as palavras. Mas, para nós, isso não era exatamente uma novidade àquela altura.

À frente de um cenário caótico e colorido, mais condizente com o seu passado recente do que com o futuro agora realizado, tivemos a primeira medida do quanto universos antes apartados, exceto no íntimo de sua personalidade, foram definitivos para o fragmentado e doloroso processo de reinvenção levado a cabo com “Avante”. Surgia ali, ainda sem que nos déssemos conta, o fio condutor de “Nos Balés da Tormenta”. Para mim, o filme é acima de tudo um ensaio sobre como arte e vida se misturam.

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