A história dos balés – parte 2

por Caio Jobim

Há um sentido de urgência no título do novo disco de Siba -“Avante”. Sentido este que também norteou a realização do documentário. Quando surgiu a oportunidade de embarcar na jangada singrando os mares que agora desaguam “nos balés da tormenta” houve um tempo insignificantemente curto para que levantássemos a produção de um longa, ou mesmo de um curta – na época nem sequer estava claro que o objeto daqueles registros teria como objetivo a produção um filme. Antes mesmo de a DobleChapa existir oficialmente eu e Pablo nos lançamos sozinhos neste desafio, sem leis, sem orçamento, sem equipe. Grande parte do processo aconteceu assim: um filme feito a quatro mãos, duas câmeras e um microfone. E foi fundamental que tenha ocorrido desse jeito. De outra forma não teríamos obtido o resultado alcançado. Qual seja, é aquele que se vê na tela.

Depois que o Pelas Tabelas foi ao ar voltaríamos a nos encontrar quase um ano depois, por ocasião da passagem de Alessandra Leão e Rodrigo Caçapa pelo Rio. Foi em uma noite na Urca, em frente às águas calmas da baía da Guanabara, após ouvir histórias sobre a viola nordestina e a tradição da cantoria, ainda inebriados por “Violas de Bronze”, que pela primeira vez falamos com Siba sobre a nossa vontade de fazer um registro audiovisual sobre o trabalho que se anunciava.

Àquela época Siba ainda não tinha ideias muito claras sobre o norte do seu processo criativo. A única certeza era a de que seria um trabalho elétrico e contaria, de alguma forma, com a participação de Fernando Catatau. Para isso, ele encomendara a um luthier a construção de uma viola elétrica, com 10 cordas, na qual pudesse reproduzir as afinações e traduzir em eletricidade a sonoridade e a linguagem da viola nordestina.

Deu pra sentir pela sua expressão que a nossa proposta, naquele instante, soou se não absurda, ao menos totalmente desprovida de sentido. Havia por parte dele uma reserva natural à exposição de parte de um processo ainda muito incipiente, em que não estava muito clara a forma de transportar ao som e à poesia as ideias que habitavam a sua mente, mesmo que ele já tivesse começado a tentar traduzi-las musicalmente. De qualquer jeito, a ideia fora lançada e estava no ar.

Depois de um ou dois encontros fortuitos em que o assunto foi evitado, iniciamos uma troca de emails que, não sem alguma insistência de nossa parte, resultou na combinação de um encontro. Numa tranquila tarde no alto de Santa Tereza – sempre Santa – em setembro de 2010, pela primeira vez conversamos francamente sobre a nossa vontade e seus possíveis desdobramentos. Siba questionou nossos objetivos. Sinceramente, não tínhamos muito claro qual seria o fim do material registrado ou mesmo a forma como ele poderia ser lançado e disponibilizado ao público. Queríamos apenas acompanhar as diferentes fases de concepção do novo disco, desde os primeiros momentos, totalmente solitários, até os ensaios e a gravação propriamente dita. O fim seria delimitado pelo primeiro momento em que a obra chegasse ao palco. Foi isso que propusemos a ele. A resposta de Siba, lembro bem: “isso por si só me interessa, mas me interessa mais ainda se eu puder participar do processo”.

E assim acabou acontecendo. A colaboração de Siba acabou sendo muito mais no sentido de permitir que estivéssemos próximos nos momentos importantes da criação de “Avante” e de propor situações aparentemente desconectadas do contexto da produção do disco, como a visita ao sítio do seu avô, no agreste pernambucano, e a noite virada em Nazaré da Mata no ensaio do Maracatu Estrela Brilhante, do que na concepção do filme em si. Momentos estes que ganharam sentido e relevância já no nosso primeiro contato com o material bruto.

Um mês depois daquele segundo encontro em Santa Tereza embarcávamos para Recife para a primeira etapa das filmagens.

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